(…) notas de celular: o desenho

gabriel duarte

nov. 2023

(…) notas de celular: o desenho

gabriel duarte

nov.2023

 

confesso que não me recordo se sempre tive um interesse profundo em desenhar. lembro-me das infâncias regadas pelas tintas de tecido e tintas a óleo pela casa que minha mãe usava em seus trabalhos artísticos. havia tinta por toda parte, não só em seu atelier... era possível ver mancha de tintas por engano nas roupas ou até mesmo, encontrar tintas nos quartos. mamãe era inquieta. em geral, pintava flores e paisagens em sua maioria com traços camponeses. no fundo, sinto que ela sempre quis pertencer a esses ambientes e estando ela no meio da cidade, via que suas pinturas eram a sobrevida dela. e assim foi até o fim, em todos os seus trabalhos: flores, carroças, pássaros de diversas cores, folhagens, casas de campo, todos estes elementos de um imaginário que sempre quis pertencer. sempre, desde pequeno, ao ver isso, eu imaginava os sons. lembro-me inclusive um sábado onde abrimos a janela de casa ao acordar e pardais invadiram o quarto – era a alegria dela. a última vez que vimos pássaros juntos foi na pandemia, meses antes de falecer. uma revoada de pássaros na frente de casa, de todos os tipos, voando e cantando juntos. o céu paulista não estava tão poluído, o mundo estava mais silencioso e a natureza se recompondo feliz: uma revoada de pássaros urbanos celebrando a liberdade. uma revoada de pássaros de porcelana.

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de mim, recordo-me de gostar de giz pastel e giz de cera. sempre achei difícil desenhar. e esses artifícios materiais eram raros em casa, mesmo com uma mãe ligada as artes plásticas. era comum os lápis de cor, material obrigatório na escola. eu não conseguia fazer coisas que minha mãe fazia, que eram técnicas adquiridas em revistas da pintora Bia Moreira vendida em massa nos anos 90 e início dos 2000. haviam várias dessas revistas em casa e todas foram doadas em 2021, ano de falecimento da minha mãezinha. muitas técnicas autodidata também estavam em jogo no trabalho dela e pra mim, era admirável tudo o que ela fazia. acompanhei muitos dos seus processos criativos que os guardo com carinho e quando me vejo com problemas composicionais, acabam sendo neles que busco alguma escapatória. as vezes tenho sucesso. outras vezes, não. ela não escrevia nada, mas ela corria o risco: as vezes um quadro perfeito ao meu ver e para ela, com detalhes a corrigir. ela simplesmente misturava as tintas e ia, com cuidado para fazer as correções que valessem a pena e no final das contas, bingo! ela acertava. mamãe era inquieta, com traços camponeses cheio de sobrevida.

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lembro-me da minha infância ser comparativa com pessoas talentosas que eu admirava e uma dessas pessoas era meu vizinho Jonas, apelidado e conhecido por todos do bairro e da nossa rua como “Tico”. tudo ele fazia bem: fazia pipas que voavam alto num céu limpo e na época cheio de vento, rabiolas imensas, andava bem de bicicleta, jogava futebol de forma encantadora e também desenhava. copiava o Pica Pau, Pernalonga… e muitas outras coisas da cultura acessível a nós, sempre num caderno de escola, de 20 matérias pautado e quando as condições financeiras ajudavam, havia um caderno de desenho com folha limpa e com um lápis diferenciado. ali reinavam seus desenhos e com ele aprendi algumas coisas. aprendi a ver e copiar. tudo na rua, descalços nas calçadas. no fim da tarde, um café coletivo que algum vizinho fazia e partilhava... era um tempo bom. e trazer isso de reproduzir uma imagem no papel é um processo difícil.

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pouco tempo depois, eu tinha revistas de mangás que perpassavam pelas leituras da minha irmã e sua fascinação pela cultura japonesa. música e desenho. ali eu via o desenho ganhar força, mas nunca predominar. minha irmã não desenhava. ela também não falava muito, não tenho muito o que descrever sobre. mas ela acompanhava um universo que tinha em sua cultura o desenho: o desenho dos kanjis japoneses que ela estudou ao longo da graduação em livros e cadernos quadriculados com canetas especiais para a textura e forma de cada curva, as linhas do monte fuji, dentre muitas outras coisas que ela veria pessoalmente no período em que ela viajaria para morar no oriente. quando ela voltou, parecia que ela ainda estava lá... a frieza japonesa numa paulistana que sempre foi calorosa. e desde então, nunca mais fomos os mesmos – a última vez que falamos foi no falecimento de mamãe, meus irmãos são outros... a borracha também existe na vida. mas ela ainda é, de fato, a minha irmã, embora com novos traços. revoada de pássaros de porcelana.

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não posso esquecer do meu pai de uma cidade do interior de minas gerais. uma cidade sem biblioteca, sem hospital, com uma escola a quilômetros de distância, além de muitas outras precariedades. quase morreu enquanto criança de uma doença séria por falta de apoio. quando criança, viu um carro pela primeira vez aos oito anos de idade e ao andar nele, chorou. meu pai, oriundo de um brasil profundo. tornou-se um metalúrgico, operador de um torno mecânico e outras máquinas industriais do ramo gráfico. veio como muitos outros fazer a vida em são paulo. ele desenhava peças a mão, fazia croquis sobre engrenagens e seu universo de trabalho envolvia muitas medidas exatas, diferente do universo imaginativo da minha mãe. e tinha um conhecimento sobre resolução de problemas muito natural. lembro-me até hoje do desenho da casa que vivemos: ele fez a mão e foi transformado numa planta arquitetônica. sempre achei fascinante a forma e visão dele de proporção, mesmo morando numa casa fora do esquadro durante parte da minha infância, mas era a condição que tínhamos na época. e confesso nessas notas que eu achava um barato ver três paredes corretas e uma menor que todas as outras. era como se aquela parede não pertencesse ao ambiente, mas no fundo, ela era o esquema principal do ambiente, mas sobre isso, cabe dissertar mais e em outros textos: linha torta de uma casa sofrida. e outras coisas ele desenhava também: tudo de caráter técnico. em casa nunca o vi desenhando, mas sabia que ele tinha um conhecimento técnico sobre desenho industrial. estudos do SENAI, numa época onde isso despontou com força no brasil em sua adolescência, na década de 70.

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quando me vi adolescente, eu já era um misto disso tudo e por influência indireta, aluno de um curso técnico de edificações. aprendi como se constrói uma parede, como se faz massa, concretos. como medir um grande terreno [com elevações ou não], fazer estruturas de um edifício – calcular o peso para uma casa não ruir. hoje vejo todas essas imagens em minha composição, tanto que assuntos das minhas iniciações científicas permearam a direcionalidade e pontos de apoio estruturais bem como sobreposição de camadas heterogêneas. muitas vezes minha visão de construir um tecido musical é como desenhar e esculpir uma parede. bloco após bloco, colado com uma massa heterogênea de cimento, cal, areia e água. quando preciso, um concreto mais pesado com pedregulhos finos. e tudo isso, desenhado a partir de um papel com o questionamento: o que estou construindo? – foram três anos dividindo os estudos de clarinete na escola municipal de música com o mundo arquitetônico e da engenharia civil. mas me fascinava mesmo as aulas de desenho: usar réguas, esquadros, compassos, fazer uma casa a mão... projetar espaços. confesso que nas aulas de autocad eu achava uma chatice, mas também, não dá pra gostar de tudo. minha personalidade inventa pra algumas pessoas que cheguei a prestar fau-usp, mas é mentira. gosto de criar essa lenda. o máximo que aconteceu mesmo foi ter falado isso para minha mãe e para meu pai quando na verdade eu me inscrevi pro vestibular de música escondido e não passei da primeira fase – foi quando prestei para clarinete na eca-usp em 2015 e fui reprovado pelo montanha e pelo fábio. essa é mais uma história que poderia ser dissertada em outro momento – tem lá seu humor, uma vez que seria o departamento que iria me acolher depois de dois anos no curso de composição. e até agora pode ser perguntado: e o desenho? – ele sempre estava lá... ou aqui, comigo.

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em meus estudos, desde adolescente, reparei que tudo é esquematizado com linhas, palavras curtas, pequenas ilhas onde as setas guiam o pensamento – as vezes conclusivo e na maioria das vezes onde apenas eu consigo desvendar pois sei como aquilo foi criado. a falta de desenho pode ser também um desenho. e o desenho vem com força na faculdade, quando me deparo com silvio ferraz, uma figura impar no sentido de ensinar. diferente do rodrigo lima, silvio é mais provocativo. sinto que ele gosta do desconforto ou como ele mesmo diz: cavalos de corrida. minhas orientações eram desenhos e palavras chave. não entendi [por completo] de fato quase nenhuma orientação e muita coisa acredito que fiz errado na graduação... ou não, fiz como eu achei que deveria ser feito e as palavras do silvio ecoam até hoje em mim hoje, anos depois de sair de lá, mas sinto que minhas melhores aulas foram via whatsapp... tenho a impressão também que as melhores aulas foram comentários e conversas de instagram, fotos compartilhadas e a provocação recente após eu comentar um desenho: “gabriel, desenhe a sua mãe”. aquilo me pegou... e fiquei sem reação. quando li, senti: “como desenhar alguém que tinha em suas mãos o desenho que vi ao longo da minha vida inteira e do meu cotidiano diário?” - fui conhecer paul klee na usp, kandinsky na emesp, o que eu conhecia de arte de desenho era o que mamãe fazia, que minha irmã trazia, que o tico desenhava, que papai fazia em seu ofício e algumas coisas rasas vista sem detalhes na escola. não vou dizer que o abapuru de tarsila é raso, mas todos conhecem... enfim, eu sempre gostei de procurar o desconhecido!  é algo quase impossível eu me conceber no desenho e quando vi que seria difícil passei a fotografar, mas também, comprei um caderninho e passei a rascunhar linhas. linhas de solfejo, de ideias... linhas de afeto. linhas da saudade [de tudo] que saíram das réguas e esquadros da época do desenho técnico: essas linhas de agora têm o pó imaginário dos blocos de barro que eu aprendi a construir parede. essas linhas passaram a ser janelas para serem vistas como uma paisagem imaginária a ser desenhada... ô sorte!

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hoje ao fazer as coisas do cotidiano, vejo o mundo diferente: o olhar de músico jovem, neste momento arquivista musical, compositor de música de concerto [dita] com o passado do técnico de edificações que nunca construiu nada, apenas estudou, de pai desenhista técnico, de mãe artista plástica e professor de composição desenhista e pintor. com tudo isso, olhar para um trilho de trem, para um telhado, para paredes, pisos... olhar para letreiros na rua, campinhos de futebol de várzea dentre outras coisas, é ver texturas, linhas, camadas... é ver música: sobrepor tudo ao silêncio de uma capela ou ao caos de uma rodoviária que é um ponto de encontro de outras linhas... é sobrepor isso as lembranças dos trombones da igreja, misturado com uma cozinha tocando the chicken com saxofonistas amadores tocando spain se confundindo com violinos tentando afinar as cordas soltas de anos que jamais foram trocadas. 

linhas de criação, linhas de liberdade. tudo hoje é diferente. pequenas memórias: linhas de recordação. em notas de celular, eu não sabia que eu desenhava, nem que eu escrevia.

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duarte 2024 - texto publicado neste canal em 22.06.2024 - 01:22, ouvindo uma palestra de marcos branda lacerda